Lucas se aproximou devagar. O carrinho estava como ele lembrava: a lateral amassada, a tinta descascada, mas ainda inteiro. Estendeu a mão. Quando os dedos tocaram o metal frio, a lembrança veio de volta de uma vez, seca, sem aviso.
A briga.
Ao chegar da escola, Lucas ouviu barulhos no quarto. Por um instante, achou que fosse um pássaro preso lá dentro — a janela vivia ficando aberta quando ele saía.
Mas, ao abrir a porta, a cena arrancou o ar dele: o pai, aparentemente embriagado e olhos perdidos, batia na mãe com socos e pontapés.
Lucas gritou. Correu e pulou nas costas dele, tentando puxá-lo para trás. Não adiantou. O homem o agarrou e o arremessou para longe. Por sorte, ele não bateu a cabeça na quina da cama.
O carrinho azul estava no chão. Lucas o pegou e atirou com toda a força, como se aquilo pudesse interromper o pior. Não interrompeu.
Depois de mais um soco, o pai parou por alguns segundos. Virou-se e saiu, batendo a porta.
Lucas conseguiu se levantar e ligar para a emergência. Não demorou para alguém chegar.
Depois da briga, o pai sumiu. Nunca mais apareceu.
Ele nunca entendeu o motivo. A mãe também nunca comentou, e ele, por receio, nunca perguntou. Mas, agora tudo vinha à tona dentro daquele quarto.
Por quê?
