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O ano é 2101. Hoje podemos comprar remédio para terminar com a vida nas farmácias, mas como a burocracia é grande, também o encontramos em muitas esquinas, vendido como antigamente se vendiam drogas. Raquel, 30 anos, passou por vários problemas; cansada da vida, resolveu comprar, da forma mais anônima possível.
Em sua casa, sentada no sofá da sala, ficou ali, imóvel, observando a pequena pílula sobre a mesa de centro como quem encara uma porta que não sabe se deve atravessar. A sala estava silenciosa demais, quase cúmplice. O relógio na parede marcava um tempo que ela já não sentia passar.
A carta ao lado da pílula era curta, escrita com a calma de quem tenta organizar o caos. Não explicava seus motivos — ela não queria que ninguém carregasse esse peso — apenas deixava desejos de paz, de alegria, de que seguissem em frente sem procurar respostas onde não havia.
Ela respirou fundo. Pegou o comprimido entre os dedos. A mão tremia, mas não o suficiente para fazê-la desistir. Abriu a boca, inclinou a cabeça levemente para trás.
O telefone tocou.
Um som comum, cotidiano, mas que naquele instante pareceu deslocado, quase agressivo. Raquel fechou os olhos, esperando que parasse. O toque insistiu, vibrando pela sala como se tentasse alcançá-la.
Parou.
Ela levantou o comprimido novamente.
O telefone tocou de novo.
Dessa vez, ela não conseguiu ignorar. O nome no visor acendeu como uma pequena luz em um quarto escuro. Uma lágrima escapou antes mesmo que ela atendesse.
— Alô… — disse com a voz falhando.
Do outro lado, uma voz perguntou: — Oi, Raquel… você tem um minuto?
Raquel respirou, sentindo o peito afrouxar pela primeira vez em semanas.
Com a voz rouca, respondeu: — Essa sua ligação me salvou o dia… talvez um pouco mais.
E deixou o comprimido repousar novamente sobre a mesa.
